O antipático

Desde os dezenove anos de idade faço serviços voluntários ininterruptamente. São trinta anos. Comecei atendendo solitários, depressivos e suicidas, depois, enfermos, idosos e abandonados; neste contexto, também tenho sido formador de outros que virão a fazer os mesmos serviços ou que já fazem e buscam se aprimorar. De uns vinte anos para cá também passei a atuar nas áreas do esporte, lazer e cultura, via instituições comunitárias; a seguir, no associativismo e suas demandas que, em essência, visam ao bem estar das comunidades representadas – os empreendedores, os seus colaboradores e familiares, enfim, os moradores. Completarei cinquenta anos de idade em maio próximo e em julho passado completei vinte e cinco anos recrutando e selecionando pessoal para o mercado de trabalho, profissionalmente, e orientando, voluntariamente.

Comunico e faço até o limite dos meus saberes e me esforço muito para ampliá-los constantemente. Aprendi as artes da escuta, da empatia, da ética e igualmente me esforço para conservá-las e ampliá-las. Descobri o quanto é bom servir sem esperar nada em troca: aparece o serviço e não o servidor, os beneficiários geralmente nem sabem quem os beneficiou. E, em assim sendo, o mais beneficiado é aquele que fez o bem sem olhar a quem. Gente abnegada de verdade sabe do que estou falando: não fazemos recessos durante nosso perene processo de disponibilidade para com o próximo.

Conforme fui aprendendo de comportamento humano aprendi como é fácil massificar, alienar e ganhar dinheiro com isso; e o quanto é difícil não ser vaidoso, individualista e materialista. Porém, comecei a aprender o quanto é bom preferir o ser ao ter, o caráter ao status. Senti que precisava escolher, sofri, custou, escolhi; e assumi meu modo de comunicar: autêntico, olho a olho, sem duas caras ou pelas costas, sem terceirizar ou dissimular.

Escolhas que intensificam a necessidade de compreensão da família, dos amigos e conhecidos, ante os quais tenho credibilidade, não necessariamente, popularidade. Quanta gente admitiu que antes de relacionar-se comigo me taxava de antipático. Recentemente, soube por uma amiga que outra, tão amiga quanto, falou a meu respeito para um grupo: “Só não gosta do José Carlos quem não conhece o José Carlos!” Sendo parcial, porém, sincero, concordo, com uma ressalva: mentirosos, fofoqueiros, oportunistas etc hão de sempre me taxar de antipático.

O preço a pagar é frequentemente algum oportunista furtar minhas ideias, falas, textos e conquistas e as divulgar como se fossem suas; invejosos, vingativos, inseguros, acomodados e precipitados geram boatos e situações para me prejudicar; ou, no mínimo, se afastam. E é preciso se controlar para não vomitar nos canalhas que, não tendo histórico de verdadeiros e limpos serviços à comunidade, cinicamente se apresentam e oferecem como se fossem líderes, capazes, solidários etc, principalmente, na hora de aparecer em fotos, vídeos e nos anos eleitorais.

Em contrapartida, os frutos são maravilhosos: alguns farão bom proveito do trabalho e da comunicação limpa e fundamentada que a gente realiza, enquanto, natural e espontaneamente vai construindo longeva e concreta história de serviços às comunidades das quais se participa. Nenhum dinheiro supera a riqueza de uma consciência tranquila e o prazer de se ter porção de verdadeiros amigos, companheiros e parceiros. Dia desses, uma querida conhecida cuja formação teve minha participação disse o quanto aprendeu e aprende comigo e disse desejar que eu continue sendo a luz que ilumina tanta gente. Respondi que ela também ilumina muita gente, inclusive, a mim.

Eis que todos nós somos limitados, falíveis e sujeitos ao erro. Eis que todos nós podemos ser ilimitados em nossa capacidade de aperfeiçoamento, infalíveis em nossa perseverança e sujeitos ao acerto de escolher o que há de verdadeiramente bom em nós e nos outros. Das nossas escolhas resultará para quais pessoas seremos tidos por seus iluminadores e quais nós teremos por nossas iluminadoras. Passa por aí sermos tidos por simpáticos ou antipáticos perante uns ou muitos, mas, não todos.

José Carlos de Oliveira

Publicado originalmente em 18 de março de 2016

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