Adequação ou preconceito?

Selecionadores e empregadores tem restrições em relação às situações a seguir relacionadas. Podem ser justificáveis ou condenáveis: no primeiro caso, dificilmente aceitas pelos descartados; no segundo caso, dificilmente admitidas pelos responsáveis.

Fumantes

Se você ainda é um dos milhões de pessoas suficientemente fracas para aderirem ao nocivo hábito do fumo e incapazes de abandonarem o vício, pelo menos, precisa praticar o mínimo que a etiqueta determina: fume bem longe das pessoas que o cercam, ao ar livre, preferencialmente, para reduzir o fedor com o qual suas roupas e cabelos ficarão impregnados. Após, escove bem os dentes e lave as mãos – com sabonete.

Não pergunte se as pessoas próximas se incomodam que fume. Se disserem que sim, você ficará numa situação desagradável. Se disserem que não, quase sempre estarão mentindo para serem educadas e serão incomodadas. Se receber alguém na sua casa ou local de trabalho, não se atreva a tomar a liberdade de fumar; fazê-lo continuará a ser demonstração de falta de educação, mesmo dentro do seu território. Usar a xícara como cinzeiro, conversar com o cigarro na boca, jogar a bituca no chão, no vaso de flores ou vaso sanitário são outras demonstrações de grosseria explícita. Fazer uso de fumódromos não traz melhora significativa ao conceito que outros possam ter de você, enquanto fumante.

Muitos selecionadores ou empregadores fumantes optam por não aprovar e contratar fumantes. Além do já exposto, invariavelmente os fumantes são favoritos a terem problemas de saúde, licenças para consultas, tratamentos, aposentadorias por invalidez, morte etc.; portanto, geradores de despesas e prejuízos. Lembre: empresas contratam para resolverem os problemas delas e não os dos empregados. Existem profissionais altamente qualificados e não fumantes.

Obesos

Não trataremos aqui de obesidade exagerada ou da chamada obesidade mórbida.

Somos milhões de vítimas da gula, compelidos pela sociedade de consumo e pela nossa fraqueza pessoal, diante de tantas guloseimas, iguarias e acepipes, além de péssimos hábitos alimentares herdados de geração em geração. Os alimentos desperdiçados na produção, transporte, depósito, feiras, mercados, restaurantes, lares etc. bastaria para que não existissem mais famintos no Brasil.

No trabalho a obesidade pode gerar falta de eficiência e segurança, quando a atividade exige agilidade do corpo. E falta de saúde, qual seja a atividade. É situação semelhante a dos fumantes.

Tente reduzir ou eliminar seus quilogramas a mais para preservar sua saúde física e emocional, com orientação médica e não com fórmulas e métodos suspeitos; isso também vai melhorar sua vida no trabalho. Melhore de verdade e não crie uma máscara: é comum se acostumar a encarar o obeso como pessoa bem humorada e feliz, que aceita e faz piadas sobre si mesmo etc.; no entanto, muitos são tristes, e podem vir a desenvolver depressão.

Os quilogramas a mais, para atividades das quais se espera boa aparência, são problema de gravidade altamente polêmica. Vá, por exemplo, a um shopping e observe os vendedores: em geral, jovens, bonitos e magros; principalmente, se forem mulheres.

Mulheres com filhos pequenos

Muitas mulheres patroas, em todas as áreas e principalmente no setor privado, por suas experiências de mães de filhos pequenos, não contratam ou evitam empregadas mães de bebês ou crianças com pouca idade. Seguem o pressuposto, verdadeiro, de que a qualquer momento poderão chegar mais tarde, sair mais cedo ou trabalhar tensas, por causa do filho enfermo. Algumas, porém, justamente por isso, contratam e até preferem essas empregadas; esperando delas, empenho e reconhecimento, caso ocorra uma ausência por causa do filho.

Mulher responsável e bem formada tende a ser ótima mãe e ótima empregada. Não fará do filho desculpa para faltar ao serviço; nem tratará mal o filho por causa do serviço.

Quanto mais responsável e preparada, menos imprevistos terá ou melhor resolverá os que se lhe apresentem.

A desculpa de que “tive empregada que faltava muito por causa do filho” não justifica desconsiderar a contratação de uma boa empregada, por causa dos filhos que tenha ou possa vir a ter.

Não se tire a razão do selecionador e empregador que descartar mulher com antecedentes repletos de instabilidade que envolva, inclusive, filhos. Dentre várias situações comuns, dois exemplos: mulher oculta estar grávida até efetivar-se num emprego para garantir direito à licença; casal resolve engravidar, mas, primeiro a mulher procura emprego e, tão logo o consiga, engravida. São práticas frequentes, não apenas entre casais de baixo nível social, cultural etc. Salvo exceção, mulheres que assim agem não agregam nada às empresas e patrões que as contratam: quando saem, não fazem a menor falta.

De outro modo, mulher realmente capaz, responsável e atualizada, dificilmente engravida acidentalmente e com pouco tempo no emprego. Mais importante: apesar de eventual contratempo com sua provisória e não programada ausência, deixa sua marca e faz com que o empregador aguarde seu retorno com entusiasmo, certo que ela agrega qualidade à empresa.

Profissionais que ficam pouco tempo em cada emprego. Ou que buscam primeiro emprego.

Dever-se-ia falar menos em experiência e mais em estabilidade.

O inexperiente pode ser estável nas emoções e atitudes e poderá vir a sê-lo no primeiro emprego; o experiente não é necessariamente estável e qualificado.

Inúmeras são as situações justificáveis para a curta permanência de alguém num emprego: falência da empresa, maus tratos, inadaptação durante o período de experiência etc. As melhores pessoas e profissionais podem passar por uma situação assim.

Por outro lado, quanto mais a pessoa troca de emprego, mais deixará claro que ela é a responsável pela situação e não os seus patrões; ainda que algum deles tenha sido o causador eventual do problema. Mesmo que a pessoa seja honesta e proteste contra esta afirmação, no mínimo, ela não sabe escolher os empregos; o que é uma carência dela e não dos antigos patrões.

É insuperável a diferença entre os que permanecem semanas ou meses nos empregos e os que permanecem anos. É verdade que estabilidade pode não ser garantia de qualidade: muita gente trabalha anos num só lugar e tem desempenho comum ou medíocre, beneficiada por algum fator específico – caso em que estabilidade pode ser equivalente a desqualificação e acomodação. Ainda, entretanto, quem permanece anos num só emprego, dificilmente sairá por motivo desabonador e possivelmente terá bom desempenho, fazendo com que seu patrão anterior seja a sua melhor referência na busca do próximo trabalho.

Profissionais com negócio paralelo – próprio

Pode-se supor que abandonarão o emprego no momento que lhes seja oportuno: após recuperação financeira, aquisição de novos conhecimentos, atualização de carteira de clientes etc. Ou, que não terão dedicação integral, seja no tempo, seja no empenho. Ou, ainda, que estarão sempre mais cansados, por estarem trabalhando dobrado. Na prática, é o que geralmente acontece.

Alguém poderá interpretar que justamente este profissional poderá render mais, posto ser mais empreendedor, ousado, trabalhador etc. Esta é a situação menos comum e a que mais motiva considerar a contratação.

Profissionais que estão deixando negócio próprio

Sobre eles muitos dirão serem fracassados, falidos, que estão fora do mercado, desatualizados etc.

Só se fecha negócio próprio porque não deu certo, porém, não se deve generalizar dizendo que todos os empreendedores que encerram seu negócio o fazem por incompetência.

Alguns selecionadores poderão encontrar neles o perfil arrojado para desafios que a empresa precise superar.

Profissionais sem experiência anterior registrada em carteira

Ter a carteira profissional disponível é indispensável e não ter registros anteriores pode ser inevitável. Especialmente no Brasil, onde mais da metade dos trabalhadores estão na informalidade.

Muita gente tem experiência registrada e isso não garante sua seriedade e qualidade. Outros não têm registro anterior e podem corresponder às expectativas do empregador.

É reprovável a atitude do empregado que se nega a receber o registro em carteira. É usual negar-se o registro para continuar recebendo o seguro desemprego. A maioria dos desempregados, principalmente dentre os com formação média para baixo, preferem garantir mais uns meses de seguro desemprego e até fazem desse período uma espécie de férias prolongadas; importa menos a perda de eventual oportunidade dum novo, efetivo e duradouro emprego. Outros negam receber o registro por vergonha da profissão a exercer.

Milhares de empregadores não registram seus empregados. Em geral, para economizar parte dos encargos trabalhistas. A alguns, falta o interesse em fazê-lo, não o dinheiro. Outros, se registrarem seus empregados, arriscam-se a inviabilizar suas empresas. Não justifica a irregularidade e é círculo vicioso, histórico e de difícil solução: precisaria, por exemplo, de acertada e duradoura gestão da economia do país, de urgentes, amplas e adequadas reformas tributária e trabalhista, da previdência e política. Para construí-las seria preciso mais vontade, idoneidade moral e ética, então, uma espécie de reforma comportamental; o que é possível, mas, beira à utopia.

Muitos selecionadores e empregadores supervalorizam a importância do registro; a ponto de arriscarem a desperdiçar ótimos talentos. Candidato a emprego que seja sério e capaz apresenta outros predicados, mais importantes que registros anteriores na carteira.

Existe uma prática crescente: o prestador de serviços sem vínculo empregatício. Ora para improvisar ou ajustar uma relação de trabalho que ficaria na informalidade; ora para preservar a vida familiar (mais tempo em casa e menos tempo com deslocamentos) e priorizar a capacidade empreendedora do trabalhador e economia dele e da empresa.

Profissionais que estudam à noite

Supõe-se que estarão sempre mais cansados e indisponíveis. Pode-se considerar que são mais esforçados. É garantido que seu aprendizado, geralmente, terá menor aproveitamento.

Você poderá protestar. Por exemplo:

Que os mais “ricos” só estudam, em escolas particulares, e, com melhor preparo, passam no vestibular da UFPR e da UTFPR; ou podem pagar mensalidades na PUCPR, UTP etc. Depois de formados ganham o escritório ou consultório dos pais ou uma vaga numa empresa, por indicação de alguém influente; ou, ainda, terão melhores chances nos concursos públicos. Que não saberão o que é trabalhar até os vinte e poucos anos de idade e quando começarem já terão uma boa situação financeira e “status”, sendo chamados de doutores, engenheiros etc.

Só apontar injustiça não gera justiça; protesto é livre, mas, não paga contas, nem garante o sucesso de ninguém. Nem todos os favorecidos por melhor sorte inicial serão bem sucedidos, nem podem ser simplesmente recriminados. Muitos dos que passam por extremas dificuldades iniciais poderão obter êxito.

Você, que se sente em situação precária, seguramente será invejado e criticado por outros, que terão certeza de que você é mais privilegiado.

Desempregados por mais de seis meses

Quanto mais tempo desempregado, mais fora de forma, mais defasado e mais atrasado. É verdade e é relativo; isso se pode minimizar com cursos, estudos informais etc.

Muitos dizem que “se fosse bom empregado, não teria sido demitido e não ficaria tanto tempo sem emprego!” É verdade quando se refere a vadios, desonestos e incompetentes – e são muitos.

Alguns selecionadores e patrões compreendem que existem tantos desempregados, que em certas áreas é grande a concorrência entre excelentes candidatos, sendo inevitável ficar muito tempo desempregado. Porém, mesmo dentre esses mais sensatos e tolerantes, vai imperar a preferência por aqueles há menos tempo desempregados.

Um grupo seleto de profissionais se permite até pedir demissão para realizar novos estudos, em tempo integral, crentes que poderão retornar ao mercado de trabalho com fôlego ainda maior. Quando acertam suas idéias, projetos e resultados, o próprio mercado os procura.

Profissionais com menos de vinte e mais de trinta anos

É como se a vida útil do trabalhador fosse dos vinte aos vinte e nove anos de idade.

Antes dos vinte dá para ter relações sexuais, casar, gerar filhos; furtar, traficar etc. Trabalhar? Em geral, somente empregos inexpressivos ou irregulares; se tiver menos de dezesseis, a lei proíbe trabalhar. Para os homens o serviço militar obrigatório costuma ser um agravante (embora possa ser uma oportunidade).

Após os trinta, piorando a cada década a mais, é como se a pessoa já estivesse morta, mas, negando-se a deitar num caixão. Nossa cultura é oposta à oriental, na qual o mais idoso é venerado e tratado como sábio. Aqui, costuma ser vítima de piadas grosseiras e se tornar um fardo para seus parentes.

Mesmo aquém do ideal, cresce o número de empregadores a perceberem o quanto pode ser valiosa a ação de empregados jovens e novatos, em certas funções; igualmente, em relação aos mais idosos. Nunca colocando em risco a segurança, a produtividade e o bem estar; simplesmente, adequando a pessoa com a atividade.

Idade pode ser adequada ou não a uma dada atividade; nunca um defeito.

Toda experiência adquirida não elimina a condição de inexperiência em uma infinidade de atividades, assuntos e situações. Todo inexperiente tem alguma experiência. Encontramos pessoas jovens com responsabilidade, sensatez e conhecimentos que muitos numa faixa etária elevada ainda não conquistaram. Encontramos pessoas com trinta ou cinquenta anos com a criatividade, entusiasmo, coragem de sonhar, projetar e fazer, que muitos jovens ainda não apresentam. Ao selecionador e empregador atento e capaz, cabe perceber e aproveitar os talentos disponíveis. O primeiro passo é ter boa vontade para ouvi-los.

Velho e idoso não são sinônimos. Seja idoso e nunca seja velho.

Profissionais com alguma deficiência física

Foi necessária uma lei obrigando ao preenchimento de cota mínima de cargos em empresas públicas e incentivos fiscais na área privada para portadores de deficiência física; ficasse livre, pouquíssimos teriam chance. Na prática, nem todas as vagas são preenchidas, às vezes, por falta de candidatos qualificados.

Deficiência física pode não permitir desempenhar algumas atividades, porém, o que exclui bons profissionais nessa condição é a má vontade generalizada das pessoas que poderiam aceitá-los e contratá-los. Em geral, porque preferem não conviver com eles, nem arriscar-se a melindrar algum cliente. O portador de alguma deficiência física, talvez, seja aquele que melhor entenda o que é ser vítima de discriminação.

O selecionador e o empregador atentos, livres do asqueroso preconceito, percebem que muitos deficientes físicos compensam sua limitação com extrema eficiência em tarefas que podem desenvolver – com aceitáveis e fáceis adaptações, se for o caso.

Profissionais que moram muito longe do local de trabalho

Quanto mais tempo necessário para ir e vir do trabalho, maior a possibilidade de imprevistos que resultem em atrasos. A pessoa vai acumulando cansaço, perdendo concentração e produtividade; o que nem sempre é percebido por ela e sim pelos colegas de trabalho, patrões e, especialmente, familiares.

Por isso, quanto mais próximo o candidato morar do local de trabalho, melhor: é consideração importante já na triagem de currículos.

Outros fatores podem reduzir a importância da distância, desde que ajustes razoáveis sejam possíveis e acessíveis a todos os envolvidos. Exemplo: empregado que possa pernoitar no local de trabalho; empregado com qualificação difícil de encontrar e que compense um esforço do empregador, quanto a viabilizar transporte especial.

Empregado responsável, qual seja a distância a percorrer e os meios para isso, dificilmente faltará ou atrasará; se ocorrer, terá justificativa.

Empregado irresponsável, até para distâncias curtas facilmente encontrará pretexto para faltar e atrasar. Isso vai ocorrer e só terá justificativa na cabeça dele e de outros, tão irresponsáveis quanto ele. Por causa desses, que são muitos, tende-se a generalizar que todos que morem longe não são convenientes sequer para uma pré-entrevista.

Profissionais da raça negra

Um dos assuntos mais debatidos num país onde a maioria é da raça negra ou dela descende. Um dos preconceitos mais praticados.

Para muitos, negro(a)s e negras fortes e bonito(a)s são apreciados para relações sexuais mas não para um casamento; bem quistos como amigos mas não como genros ou noras; aceitos como empregados mas não como patrões. Poderia gastar horas a dar exemplos da cínica conveniência de usar um negro quando convêm ou é inevitável, mas, não aceitá-lo como um ser humano igual.

Perdi a conta de quantas senhoras e senhores educados, instruídos, bem sucedidos e conhecidos, ao solicitarem os serviços de recrutamento e seleção de um empregado, dizem algo parecido com: “- Não tenho nada contra negros, José Carlos! Mas é a minha sogra (mãe, avó, etc.) que é muito antiga, sabe? Ela é meio conservadora e é melhor evitar empregado negro para que ele não se ofenda…” Jamais aceitei ser contratado por um desses ou deixaram de ser meus clientes ante minhas negativas à tão infames desculpas e exigências.

O negro pobre, quanto mais pobre pior, é favorito para ser taxado de vagabundo, ladrão e traficante – dependendo muito do seu vestuário, vocabulário, gosto musical etc.

No esporte o negro tem se destacado; possivelmente, favorecido pela forte compleição física. Na música o destaque também é considerável. Nas artes cênicas o destaque é menor e ainda são raros os negros a protagonizar novelas, filmes e espetáculos teatrais. Se não me engano, são três segmentos destacados nos quais podemos encontrar alguns negros bem sucedidos e respeitados pela maioria das pessoas tidas como brancas; ainda que isso seja relativo: se ele não tivesse fama e fortuna seria bem diferente o tratamento recebido.

Justo dizer que algumas pessoas até dão preferência para negros. Já não ouviu falar daquela cozinheira ou babá negra que a família adotou como segunda mãe? Adotou, e não se esquece de pagar um salário digno e tudo o mais.

Às vezes, o próprio negro tem preconceito contra sua raça.

Pessoas de outras raças, como orientais, índios e eslavos podem passar por situações semelhantes às descritas.

Profissionais de outra religião

O mais polêmico preconceito. Diz-se que é questão de foro íntimo e que nada tem a ver com o profissionalismo da pessoa. Que é assunto que não se discute.

Pessoas que mal aproveitam e administram seus conhecimentos, experiências e emoções, de vez em quando ou sempre atrapalham sua formação e desempenho profissional sim, por causa de convicções e práticas religiosas equivocadas, por vezes geradas por líderes ou correligionários repletos de ignorância ou más intenções. Tem religião demais (na verdade, mais seitas e empreendimentos com intentos pouco ou nada louváveis) e pouca gente que sabe conviver com os da própria, quanto mais com os de outra ou nenhuma. No Brasil, infelizmente, é facílimo fundar uma ‘religião’ e a toda hora cria-se uma. Religião pode ser distorcida para exercício de profissão, empresa, partido político e meio de ganhar dinheiro e poder; ou, esconderijo para fugir das responsabilidades práticas do cotidiano. Como o alcoólatra, que não tem nenhuma chance de melhorar enquanto não admitir seu problema, o religioso incauto ou fanático é enfermo a atrapalhar-se e a outros; nem sempre visto como um problema e sim como solução, orientação ou exemplo para familiares e simpatizantes – parece ser pessoa normal, e, muitas vezes, consegue ser liderança na comunidade e até famoso, principalmente, quando utiliza meios de comunicação.

Há quem recuse participar de atividades aceitas pela sociedade secular, de modo digno, prejudicando, assim, sua carreira escolar, profissional, familiar etc., para cumprir preceito da religião que segue. Há empresa ou seu preposto que não admite ou restringe aceitação e ascensão de candidato ou empregado de religião diferente. Há quem ache que a empresa é que deve se adaptar – ou converter – para que aceite vir a ser empregado dela. Livre arbítrio é para ser exercido, quando próprio, e respeitado, quando de outrem; mas com inteligência e justiça.

Selecionador preparado, sensato e honesto pode tirar o máximo proveito das convicções e práticas religiosas dos candidatos a emprego, sem, em momento algum, desrespeitá-los. Porém, precisa de sutileza e coragem para não ser vítima de candidato a emprego que vive satanizando – em pensamentos, palavras e atos – tudo e todos que não pertençam ao seu grupo religioso: de imediato ou a qualquer momento tende a criar situação injustificável lógica e racionalmente.

Selecionador/empregador e candidato a emprego precisam possuir com intensidade: ética, moral e conhecimento suficiente para as atividades e relacionamentos aos quais se propõem. Possuindo, praticando e aprimorando as três condições elencadas, se seguirem religião: será uma séria, bem fundamentada e, nesse caso, com marcante ampliação da sua qualificação como fiéis religiosos, pessoas e profissionais. Compreensão de moral é variável; que haja bom senso no seu uso.

Profissionais tão qualificados quanto o entrevistador

“Esse candidato é tão bom ou melhor que eu. Se ele for contratado, logo vai tomar meu lugar”. Com esse pensamento o entrevistador – ou diretor, chefe – pode sucumbir ao medo de concorrência e, pensando em si e não na empresa que representa ou possui, inventa um pretexto para descartar um candidato com reais possibilidades de agregar qualidade.

No nosso cotidiano tendemos a invejar ou admirar pessoas que julgamos mais bonitas, felizes, simpáticas, inteligentes, enfim, bem sucedidas. Se, porém, alguma delas parecer capaz de se destacar mais  que nós no mesmo ambiente – não só de trabalho – tendemos a também tomar atitudes suficientes para descartá-la antes que ela nos possa superar. Também é da natureza humana e se pode controlar isso, sem maiores problemas, mas, tem gente que não consegue e usa o poder que momentaneamente lhe permite preservar o interesse pessoal, em detrimento do interesse da coletividade que deveria representar.

Entre os já empregados ou participantes dum trabalho em equipe, sempre aparece a figura do colega ou líder aparentemente competente, mas, realmente incompetente para conviver com o potencial e performance de outros que, não vistos como colaboradores e sim inimigos, são alvos de tramas rasteiras, até que caiam.

Imagine você na iminência de ser contratado, dependendo somente do sim dum sujeito assim… Quanto melhor candidato você seja, maior a probabilidade de cair nas mãosdum coitado desses. Quanto melhor candidato você seja, menos perderá tempo sequer pensando nisso, pois, saberá que um ou outro poderá até atrapalhá-lo uma vez ou por um tempo, mas, nunca todas as vezes e permanentemente.

Existem outros preconceitos: contra ex-presidiários, ex-prostitutas, ex-moradores de rua – e atuais – recuperados (ou controlados) do álcool e tóxicos, migrantes, imigrantes, homossexuais e pessoas que não são bonitas, pela opinião geral etc.

Pode existir o outro lado da moeda: uma espécie de preconceito positivo. Como exemplo, disse a escritora Adélia Prado: “Ser mineira é ótimo. Sinto sempre um preconceito a favor.” Ou seja, podemos ter a idéia formada de que a pessoa sendo mineira é boa gente; ou o de uma religião; ou o estudante oriundo de tal escola; ex-empregado de uma determinada empresa etc. Quando, por isso, o candidato receber acolhida ainda mais intensa, ótimo, desde que ele a ratifique na prática.

Passe horas na Boca Maldita de Curitiba ou num ponto movimentado da sua cidade. Pergunte aos transeuntes, primeiro, o que acham dos preconceituosos; segundo, se são preconceituosos.  E você? Quais suas respostas?

Sempre surgirá a oportunidade para que você seja vítima de algum desses ou outros preconceitos. Muitas vezes, nem lhe será possível perceber. Por exemplo, quando for eliminado num processo seletivo ou demitido por causas preconceituosas: geralmente se inventará uma desculpa para camuflar o real motivo. O preconceituoso costuma ser omisso e covarde; ou nem tem consciência de sê-lo.

Você também deve ter suas ideias e atitudes preconceituosas. É da natureza humana e eliminá-los também é ou pode ser.

Quanto mais indignado você ficar quando for vítima de preconceito, além de tomar as providências que considere cabíveis, dentro da lei, mais se empenhe para não fazer aos outros, em pensamentos e ações, aquilo que não quer que façam a você. Não alcançará a perfeição, mas, obterá cada vez mais uma satisfação pessoal indescritível. Uma satisfação que rima com qualificação. Não me canso de repetir: a ser percebida pelos que o cercam e, dentre eles, a qualquer momento, selecionadores e empregadores ávidos por encontrar mais do que apenas ótimos candidatos a emprego.

José Carlos de Oliveira

Publicado originalmente em 7 de abril de 2005

 

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