Cuidado com o engodo do diploma

Jornais, cartazes, rádios, televisões, outdoors e panfletos cada vez mais divulgam curso para tudo quanto é coisa. Insistem na importância da qualificação e até garantem emprego aos melhores alunos, o que pode ser verdade, mas, cada vez mais consiste em proposital exagero da propaganda, para suscitar maior interesse. Sempre separar joio do trigo: existem cursos e cursos. O que todos os cursos podem garantir é o lucro do dono do curso: financeiro ou político (não apenas partidário). O que todos os cursos podem garantir é o acréscimo de conhecimento, mesmo os cursos mais fracos, dependendo do empenho de cada aluno. Nenhum curso é milagreiro: se o aluno não se interessar e esforçar, desistirá ou obterá o diploma e será apenas mais um formando.

No Brasil, muitos alunos cursam os níveis fundamental e médio (1º e 2º Graus) em escolas particulares e o nível superior nas universidades públicas. Outros, são obrigados ao inverso ou param pelo caminho por falta do dinheiro para custear uma faculdade particular. Como dito noutros artigos: para uns, dedicar-se somente a estudar, com mais dinheiro e estrutura, facilita, só não garante aproveitamento e sucesso; para outros, trabalhar e estudar, em condições precárias, complica, mas, não significa certeza de fracasso.

Uma situação atual – não tão recente – é a de facilitar o acesso ao ensino superior para o maior número possível de pessoas; até com custo bem menor. Isso é evidentemente maravilhoso. Entretanto, somente facilitar o acesso à faculdade e ao respectivo diploma não basta. Enquanto a educação fundamental e média, no geral, continuarem precárias, muitos desses felizes graduados e pós-graduados serão como a casa bonita construída sobre alicerce mal feito.

Você certamente já se deparou com paredes cheias de diplomas, certificados, menções, homenagens, fotos etc. que levem o observador a concluir que são reais e intensas a qualificação e importância do profissional, da empresa, do político etc. Também já deve ter percebido que muitas pessoas, especialmente em certas áreas e profissões, chegam a exigir tratamento especial e comportam-se, em alguns casos, como se fossem melhores e mais importantes que o resto da humanidade. Gabões e ególatras, se realmente dotados da competência que crêem possuir podem até passar suas existências conforme suas vontades e com fama de vencedores e importantes. Maiores e mais merecidas fama e utilidade teriam se, justamente por causa da sua ímpar qualificação, conservassem a sincera e indispensável humildade, típica somente das verdadeiramente grandes pessoas.

Faça todos os cursos que lhe sejam possíveis: provavelmente, quanto maior seu interesse, maior sua capacidade para saber escolher quais fazer e deles tirar o máximo proveito; sendo assim, claro, você também saberá ou logo aprenderá, por exemplo:

  • Que estudar tem que ser diferente de aprender, não sendo apenas sinônimo de estar sentado num banco escolar – há que descobrir o seu jeitode melhor assimilar as informações oferecidas.
  • Que ninguém tem todas as informações, jamais; por isso é proibido parar de aprender, questionar e renovar o que se sabe.
  • Que nas escolas e faculdades você poderá obter qualificações que justificarão seus diplomas; mas, depende muito mais de você do que das escolas desenvolver habilidades – capacidade de por em pratica suas qualificações – pois elas, cada vez mais, farão a diferença entre contratá-lo ou descartá-lo – e também sua permanência e ascendência na empresa ou na carreira.

Além disso, é indispensável:

  • Desenvolver a habilidade de estar no lugar certo, na hora certa e do jeito certo. Não sempre – o que é impossível – basta que seja em algumas situações determinantes.
  • Gerar a habilidade ou coragem de fazer alguns descartes dentre suas prioridades e interesses, para alcançar o objetivo principal; é a popular máxima de perder umas batalhas e ganhar a guerra. Exemplo: se formar-se em medicina, por vocação e não por mera busca de status, com qualidade e habilidade, mas não encontrar espaço satisfatório, que tal considerar ir para outra cidade – sem eliminar a possibilidade de futuramente retornar, já com a carreira em bom curso?

É inocência acreditar que uma única providência é suficiente para obter êxito. Quanta gente se frustrou após fazer os cursos que lhes recomendaram, atingir a idade preferencial, alcançar o tempo de experiência, usar o vestuário adequado, morar no bairro próximo, ajustar o vocabulário etc., e, após, continuou desempregada, recebendo nãos e mais palpites de  que teria que fazer isso e aquilo para se qualificar e empregar. E vai continuar frustrando-se enquanto não se tocar que a quem queira vencer não é permitido acomodar, que não ser acomodado também não é suficiente e que para enxergar bem o que está a sua volta é preciso mais que bons olhos.

Poucos anos atrás, fazer um curso de datilografia era o máximo; hoje, saber digitar bem e operar programas básicos de computador não é mérito: é obrigação. Falar e escrever bem o português não é mérito: é obrigação. Saber quem é o prefeito e os pontos importantes da sua gestão não é mérito, é obrigação. Separar o lixo reciclável; não desperdiçar água, comida e quaisquer produtos naturais ou processados; ter satisfatórios hábitos de higiene pessoal, ser pontual, ter palavra (cumprir o que combina); saber locomover-se na cidade na qual mora, encontrar endereços com facilidade e conhecer as principais ruas e pontos de referência; ter todos os documentos pessoais regularizados e em bom estado de conservação; respeitar o patrimônio alheio; conviver bem com os vizinhos; respeitar o serviço dos outros: tudo isso não é mérito, é obrigação, que, por gerar benefícios, torna-se prazerosa e fácil de praticar, mesmo com eventuais contratempos.  E por aí vai, para quaisquer assuntos, agradáveis ou não, que afetem nossa vida direta ou indiretamente. Releia os exemplos citados – são simplórios: das pessoas que você conhece quantas se ajustam a eles? Honestamente, duvido que sejam muitas. E você? Não ser habitual e consciente praticante significa estar aquém do mínimo que se espera duma pessoa civilizada e qualificada. E tudo isso se pode – e deve – aprender e praticar antes e independentemente das escolas e faculdades. Eu fico preocupado com o futuro de quem ainda está à margem das práticas citadas nesse parágrafo – quanto mais diplomas possuir e mais avançados, tanto pior. Há quem consiga fama, dinheiro e dê-se por satisfeito; mas que continuará medíocre, não tenho dúvida.

É possível fazer sucesso sem fazer faculdade, porém, considere tal hipótese exceção; em geral, sem faculdade se está fora do páreo das melhores oportunidades. Afirmar que ter faculdade deixará de ser mérito e passará a ser obrigação é temerário, mas, me parece inevitável. Depois, vai acontecer com a pós-graduação; e outras especializações se sucederão a estas. Em se tratando do Brasil, campeão mundial da desigualdade social, apenas uma parcela da população poderá chegar a tal patamar, que deveria ser acessível e exercido por todos os cidadãos que o quisessem. Hoje, quem não tem ao menos o ensino médio (2º grau) é analfabeto – e são milhões nessa crítica condição.

Instituições que continuem apenas passando o seu conteúdo programático, por melhor que seja, estão fadadas a oferecer cursos, no mínimo, defasados. Alunos que assimilem o máximo dos conteúdos programáticos e não se qualifiquem pessoalmente, poderão construir excelente perfil profissional e enfrentarão forte concorrência de outros disponíveis no mercado. Já é realidade e há de se intensificar cada vez mais a preocupação de transmitir valores e princípios que incentivem e facilitem à melhor formação pessoal e a boa convivência.

Cuidado com o engodo do diploma. Mas o engodo não é o da escola ruim, interessada apenas no seu dinheiro ou em fazer de você mais um número a engordar estatísticas parciais e favoráveis ao governante de ocasião. O engodo é a sua própria falta de percepção para enquadrar-se no meio no qual vive, tirar dele o máximo proveito, com maioria de ações acertadas, com destaque positivo e inigualável.

Não se espelhe na exceção que teve sucesso sem diplomas significativos. Não descarte vir a ser uma delas; se conseguir, estude mais.

Não acredite que terá sucesso só porque tem alguns diplomas marcantes pendurados na parede. Faça por merecer muitos deles, não para mostrá-los como parte duma exposição interessante somente para o expositor; e sim para praticar o conhecimento adquirido, para seu benefício e de outros.

José Carlos de Oliveira

Publicado originalmente em 16 de maio de 2005

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