Patéticos e encantadores

A opinião nossa de cada dia e assunto

“Freud disse, cem anos atrás, que não existe observador neutro, totalmente imparcial. Os filósofos de botequim e a ciência moderna falam o mesmo.

Somos todos tendenciosos. Galvão Bueno, mais que os outros. Costumamos pensar, analisar e agir de acordo com nossos pré-conceitos, preferências e conhecimentos, às vezes, sem perceber. O jornalista esportivo, diante das incertezas do futebol, corre atrás de fatos e explicações que justifiquem e aprovem suas opiniões. Torce por suas ideias. “Não falei”, costuma dizer o orgulhoso comentarista de televisão, durante as partidas. Quando os fatos contrariam suas opiniões, diz que o futebol é uma caixinha de surpresas.” Da Coluna do Tostão, de 12-06-13, Dilema shakespeariano.

Às vezes, somos; às vezes, parecemos ser!

Em todos os demais assuntos agimos conforme ponderou Tostão. Ora mais, ora menos, uns mais, outros menos, percebendo ou não, admitindo ou não, entre muita a nenhuma razoabilidade.

Infindáveis são as notícias, fotos, charges, comentários etc a ilustrar os mais diversos pontos de vista. Não são poucos os deliberadamente ocupados em criar versões que superem os fatos e alcancem aos seus interesses, entre dignos e mesquinhos, e, ou, os dos seus ídolos, mestres, amados, financiadores ou potenciais cobradores de favores de toda sorte.

Há os respeitosos com as opiniões diversas das suas, que escutam, ponderam, e firmam, melhoram e até, eventualmente, mudam de opinião. Há os que têm as suas opiniões, entre equivocadas e interessantes, porém, as empobrecem quanto mais se fechem em si mesmos; sendo piores os que confundem suas opiniões com verdades.

Derivam desses os que fazem de conta ser, simulando opiniões distintas conforme ocasião e interlocutor. Assim tem sido com muita gente também durante esta série histórica de manifestações populares.

Patéticos

Previsíveis, repetitivos e patéticos, destinatários dos protestos teimam em tirar os seus da reta, em se mostrar tão vítimas quanto os cidadãos decentes e, ainda, cínicos, fazem coro às causas das massas manifestantes.

Meio que cantam, para ingênuos, aquele famoso verso do Roberto Carlos: “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente!”

Entre os mais bem pagos quebradores de agulhas da atualidade, Executivos e Legislativos andam revendo determinações até horas antes tidas como irreversíveis, e aprovando em minutos projetos encalhados há anos.

Na defensiva, e instados a fazer algo, caem na mesmice de anunciar milhões de reais para saúde, segurança, educação e mobilidade, e prometer combater desperdício, má gestão e corrupção – as mesmas promessas que todos fazem quando em campanha eleitoral, e costumam não honrar, após eleitos, embora pintem quadros fantásticos com o nosso dinheiro a pagar peças publicitárias exageradas, distorcidas ou mentirosas, que enganam massas despolitizadas, ainda abundantes na nação.

Com ajuda de formadores de opinião de R$ 1,99 – enrustidos na “velha mídia” (e na elitista, destra, canhota, alternativa ou com outro apelido…) – pagos pelos seus patrões, os políticos partidários, e com o nosso dinheiro.

Observe e desconfie dos que, ainda que dissimulem e esbocem coerência, só falam bem de um lado, e só falam mal dos demais lados.

Dê-se desconto aos que se comportam como fãs de políticos: com boa fé, mais ou totalmente emocionais, tudo relevam e fazem pelos seus ídolos, mesmo quando santos do pau oco.

Encantadores

Discordo de outro tipo de escória, a que vandaliza o patrimônio público e privado, em qualquer tempo e lugar.

Discordo de omissos deploráveis, injustos e equivocados, a declarar que todos os que foram e irão às ruas são desocupados.

Comemoro que multidões repletas de seres encantadores manifestem pacificamente contra os parasitas da boa fé e do dinheiro do povo. Que muitos não tenham ainda uma politização apurada é verdade, que não desabona a sua oportuna atitude cidadã.

Que permaneçam atentos: até aqui, no geral, políticos alardeiam fazer no curto prazo, e no improviso, o que não fizeram no longo prazo, e com suposto planejamento. Paira no ar, como antes, o fedor do populismo.

Plebiscito, referendo, reforma política (e outras), constituição etc, não podem resultar em: mudar alguma coisa, para deixar tudo como estava.

Que entre manifestantes que ainda não o saibam, aprenda-se o que são e como funcionam – ou deveriam funcionar – os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

Que entendam que partidos políticos são necessários à democracia: se os nossos têm maioria de oportunistas, que gente honesta, capaz, trabalhadora e corajosa entre e se faça maioria, corrigindo ou afastando os parasitas do povo.

Que aprendam que somos seres políticos (vide dicionário). Se avessos a política partidária, mas, se formos coerentes, devemos saber dela e participar, mesmo sem filiação formal.

Que aceitem que temos políticos honestos. Convém viver a tentar identificá-los, tanto quanto aos canalhas (e não permitir sua eleição, reeleição ou indicação).

É difícil, pois todos juram que são os “mocinhos”. É imperativo tentar sempre, para não viver remunerando só “vilões” e seus pelegos.

Que vão depurando os seus pleitos e permanecendo com os essenciais, entendendo que as mudanças nem sempre são imediatas e completas, e, sim, lentas e gradativas.

Lembremos que este País, apesar dos problemas e dos seus causadores, é maravilhoso, avançou ao longo das últimas décadas, em diversos aspectos; embora injusto demais, o é menos.

Aos pleitos mais pertinentes, sobre os quais estou entre os que há décadas os registram em artigos, palestras, requerimentos, conversas, esperança etc, acrescentaria, dentre outros, os seguintes, tão antigos quanto – em minha perseverança e na de inúmeros outros cidadãos:

Usar racionalmente e cuidar concretamente do meio ambiente – com o que quase todo mundo concorda e pouca gente faz.

Respeito pleno a liberdade de expressão religiosa; porém, com dispositivos legais rígidos, para reduzir ou eliminar a facilidade com a qual oportunistas fazem da religião de aparência um grande negócio financeiro e politiqueiro.

E que, para exigir direitos, as pessoas cumpram suas obrigações constantemente, prazerosamente; sendo exemplos por seus testemunhos e compromissos reais e não apenas bons de discurso e de exigir que os outros façam a sua parte. E que se combata a corrupção do modo mais eficaz e eficiente: não sendo corrupto!

José Carlos de Oliveira

Publicado originalmente 1 de julho de 2013

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