Velho e velhaco

O velho

Ele tem 56 anos, grisalho, bigodudo, voz forte, grave, bonita, marcante sotaque, muito educado. Só tem a 4ª série do ensino fundamental, mal sabe ler; vocabulário precário e limitado, seus conceitos e comportamento, embora honesto, não o tornam interessante para o mercado de trabalho. É mecânico, aprendeu na prática; algum curso? ” – Nunca pude fazer…” Seu discurso, comum demais:

” – Sou honesto, trabalhador e sei mais do que muito moço que estuda, mas não sabe nem trocar um *bico. Eles não dão chance porque me acham velho, não tenho registro em carteira e estudei pouco. Que culpa eu tenho se precisei trabalhar desde cedo e agora não tenho mais idade pra isso?”

Quando foi à agência, por simples coincidência, havia uma vaga para a qual ele poderia ser adequado, caso houvesse alguma condescendência. Durante o processo seletivo esteve à altura do seu discurso e ações; suas limitações, balanceadas com as qualidades e características, foram consideradas toleráveis pelo possível empregador: uma oficina mecânica, legalmente estabelecida, de pequeno porte, conhecida apenas na sua vizinhança e pelos clientes bem atendidos. Insistente, até quase ser chato, durante quatro dias consecutivos foi pessoalmente perguntar se não era para ir à oficina, enquanto ainda nem sabia se seria possível.

Afinal, a entrevista com o empregador foi marcada. Saiu dizendo-se imensamente agradecido e que tudo faria para não decepcionar quem lhe dera a chance etc.

Dia seguinte, o empregador telefona para agência, onze e trinta da manhã:

” – Cadê o mecânico? Está trinta minutos atrasado…”

Num telefonema para a casa do sujeito, o próprio atende:

” – Assisti o futebol ontem, terminou tarde e acordei meio cansado. Aí pensei que tomar dois ônibus pra chegar lá é ruim, demora muito e nem sei se vou gostar da empresa. Eu já tinha perguntado pra uns amigos e eles nunca nem ouviram falar dessa oficina. Um até disse: ” – Cuidado para não embarcar em canoa furada!” Eu sei da minha capacidade e não preciso disto: posso esperar coisa melhor!…

O velhaco

Dia seguinte, foi apresentado um mecânico com 29 anos, ensino médio completo, cursos no Senai, melhor vocabulário, apresentação e comportamento. Seis anos de experiência e estabilidade na função, positiva, comprovada e recente. O empregador, ao final da entrevista, disse ao candidato:

” – Amanhã te dou a resposta!”

Em seguida, disse à agência:

” – Não vou ficar com ele porque a experiência dele é toda em outra **cidade!”

No outro dia, o candidato a mecânico procurou a agência:

” – O dono da oficina quer me contratar ***por fora da agência: pediu pra eu esperar uns quinze dias e não falar mais com vocês…”

* bico injetor, em motores a diesel

** Registro SP – o empregador soube antes e não fez objeção

*** por fora: simular a não contratação do empregado e fazê-lo sem os procedimentos ajustados com a agência, para não pagá-la

Comentário

Velho não é o que tem 40, 50 ou 60 anos. É aquele que, ante as experiências que vive consegue gerar ideias, sentimentos e ações, geralmente, as piores possíveis. Por isso fica-se velho com qualquer idade: ultrapassado, obsoleto, desqualificado, equivocado, desmotivado, desinteressante…

O preconceito contra a idade vai desaparecendo quanto mais exista qualificação pessoal e profissional. Escrever isto é moleza; praticar é difícil. Mas, é muito mais proveitoso do que ficar dando a si mesmo desculpas como não poder voltar a estudar, ter preguiça de tomar ônibus, ouvir palpites inúteis e não saber identificá-los e ignorá-los, concluir que vai dar errado antes de ao menos tentar, não ter nem noção do próprio potencial, desprezando uma oportunidade real, esperando outra, num patamar mais avançado, para o qual ainda não se está preparado. Dentre as pessoas com formação geral entre mediana e básica, mesmo após aprovadas num processo seletivo e até após sua contratação, por vezes, muitas se auto-eliminam por causa de atitudes como as do primeiro candidato da nossa história.

*Velhacos existem também em algumas agências de emprego, porém, existem muitos mais por aí, escondidos sob a máscara de empregadores sérios. Profissionais e empresas idôneas cujo ofício é recrutar, selecionar, preparar e orientar candidatos a empregos sabem o quão trabalhoso, oneroso, desgastante e arriscado isto costuma ser. E sabem e sentem o quanto é revoltante e asqueroso tratar com esses “picaretas” a querer o resultado do trabalho alheio sem pagar por ele.

Desempregado, antes de compactuar com o empregador **lambaio para trapacear a empresa que viabilizou a sua contratação (e parceira para garantir a sua segurança e direitos), lembre: você será tão “picareta” quanto ele, hoje; e amanhã, talvez, o otário que ele vai enganar também…

* Velhaco: traiçoeiro, que engana de propósito

** Lambaio: de baixo nível

José Carlos de Oliveira

Publicado originalmente em 14 de abril de 2002

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *