Medíocre ou notável

Desaprovamos corrupção, nepotismo, privilégio, mentira, preguiça, violência, inveja, indiferença, ignorância, indisciplina, ganância, calúnia, fofoca e tudo que seja ou pareça negativo segundo o senso comum e, principalmente, contrarie nossas opiniões, valores ou interesses, quando envolvem terceiros sem maiores vínculos conosco, estranhos, divergentes e desafetos. E reagimos com indignação, discriminação, crítica, retaliação, afastamento, rancor etc,  pouco ou nada importando o quanto posturas em “nós e eles”, ou do que se noticia e comenta das partes envolvidas, possuam verdade, legalidade, ética e alguma razoabilidade: indispensáveis para melhor conferir, refletir, transigir e decidir (e nem sempre totalmente ou definitivamente)…

Quando esses comportamentos estão em nós ou em alguém de quem gostamos e concordamos, tendemos a trocar desaprovação por aprovação, tolerância e até negação com tamanha naturalidade que sentimo-nos contrariados com quem discordar ou atrever suspeitar ou descobrir nossa conivente solidariedade e que também somos limitados e falíveis…

Não promover  maledicência às costas e nem truculência à frente, tampouco, ser duas caras; construir embasamento suficiente sobre aquilo e aquele de quem a gente fala, bom senso, diálogo, respeito, empatia, autocontrole, autocrítica: quantos não desenvolvem essas e outras providências e predicados, são pobres no modo de ser e realizar tais e tão ricos recursos; até para concordar, aderir e elogiar…

Isso e mais (por exemplo, ausência do hábito concreto da leitura) é exercício de mediocridade, é admissão não percebida  de que se é só mais um medíocre!

Existem atletas, cientistas, artistas, jornalistas, pregadores, palestrantes, mestres, doutores etc notáveis em seus saberes, talentos e performances, que são medíocres como pessoas; existe quem seja notável como pessoa e medíocre como profissional. Existem medíocres erroneamente taxados de notáveis e notáveis erroneamente taxados de medíocres. Existem medíocres em tudo, mas não existem notáveis em tudo. É convencional e cômodo achar que notáveis seriam os endinheirados, poderosos, intelectuais e famosos, e que medíocres seriam os outros. É coerente dizer que notáveis são escol e é incoerente dizer que medíocres seriam escória.

Ser medíocre é estar na média, o que possibilita vir a ser capaz, feliz e bem sucedido. Ademais, todo medíocre é vocacionado a ser notável e o ponto fulcral, o pulo do gato, é perceber-se, admitir-se, incomodar-se com a própria mediocridade, sair da mesmice e ser um agente de transformação de si mesmo. Podemos aprender a administrar essas pertenças do próprio temperamento e comportamento, saindo gradativamente do patamar raso da mediocridade na qual iniciamos e avançando para a notabilidade à qual podemos chegar, ainda que tardiamente e aquém de nossa qualidade, vontade e merecimento: num mundo que é maravilhoso, mas, que teima em permanecer injusto  e desigual, sobre cada pessoa incidem inúmeras dificuldades e oportunidades, bem como são diversas as consequências.

Relativamente poucos avançam para a essência, excelência e plenitude (ou, numa palavra, escol) da notabilidade: algo acessível também aos anônimos, menos providos de dinheiro e sem poder (o que não os priva de ter autoridade). O que cada um verdadeiramente é e virá a ser reflete e corresponde ao seu caráter, conforme o qual são suas opiniões, valores, intenções, atitudes e hábitos. Então, o que pode melhorar um medíocre e o potencializar a ser notável é: ser digno. O oposto de digno é infame, abjeto, vil, desprezível, desonesto, pulha, biltre, canalha (ou, numa palavra, escória): cada um de nós sabe a diferença entre o que faz de conta ser e o que em verdade é; e, com o tempo, as pessoas ao redor também conhecerão em parte ou no todo o nosso verdadeiro eu, mesmo que disfarcem não conhecer…

Para além do reducionismo de conceituar notabilidade apenas pelas posses e aparências, na sua integralidade, ser notável começa por se diferenciar e se destacar acima da média ou da mediocridade em alguns saberes e afazeres; passa por desenvolver a arte nobilíssima e exigente de identificar o que é ruim e errado e contribuir para cessar, reduzir e não incorrer: com serenidade, segurança e constância. E no seu ápice, ser notável é habituar sair dos limites do próprio umbigo para aprender e perceber que por vezes o que parecia ruim e errado é bom, certo, melhor ou o livre direito de alguém ser, pensar e agir diferente da gente!

Ser notável não é ser perfeito: é ser alguém crescentemente melhor.

 

José Carlos de Oliveira

Publicação original em 13 de julho de 2019.

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